Volta í s aulas: Os desafios da educação

16 de março de 2015

 Professores utilizam até da linguagem teatral para melhorar a dinâmica em salas de aula

 

 

Por Maiara Raupp

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Somos a sétima economia do mundo mas estamos em 57 ° lugar(dentre os 65 paí­ses participantes) no ranking do Pisa – teste internacional da educação realizado em 2012 com jovens de 15 anos. Não dá para considerar a realidade escolar um caos, mas é evidente que ter salas de aula onde 1) muitos alunos não conseguem aprender, 2) outros não apresentam interesse pelo estudo e 3) um número significativo é colocado para fora da sala por indisciplina, é um problema sério. Também não é aceitável ouvir dos professores que 1) os alunos "são desinteressados e estão desmotivados;  2) que há alunos dormindo na hora da aula porque passam a noite navegando na internet;  3) que a maioria fica querendo usar celular e MP3 no horário da aula; 4) que a dificuldade da escola vem da famí­lia, que não sabe dar limites e cada vez está mais desestruturada, delegando toda a responsabilidade da educação para a escola.

De acordo com uma professora da rede municipal de Torres que preferiu não se identificar, os alunos estão mudando seu comportamento a cada ano. Quanto maior o centro da cidade, menor o comprometimento devido a gama de entretenimentos, além da ausência dos pais no acompanhamento da vida dos filhos na escola. Eles têm diversos recursos mais rápidos e interessantes do que um professor, e nós estamos tendo que virar ‘mico de circo’ para prender a atenção destes alunos, cujos interesses não estão mais na escola. Busco conhecimento, diálogo, informalidade, mas falta algo no sistema: respeito, desabafou a professora.

Além do relacionamento professor e aluno, a educadora falou ainda da valorização da profissão. O professor está completamente desvalorizado, não só moralmente, mas financeiramente. Virou lixo. í‰ considerada a profissão de quem não tem condiçíµes intelectuais de fazer outra coisa. Os desafios são diários e particulares a cada professor e escola. Desde falta de material de uso comum í  falta de disciplina. Drogadição, excesso de alunos em sala de aula, falta de autonomia. Trabalhamos demais. Além das horas em sala de aula, ainda temos que preparar conteúdos. Isso não é considerado, pontuou a professora, acrescentando ainda que o governo precisa mudar. Tem que haver valorização ao professor. Enquanto não se apostar na educação o paí­s vai criar párias, garantiu ela.

 

Conhecimento X informação

 

Outro desafio, levantado pela professora de história Daniela Bittencourt, é a falta de conhecimento dos alunos. Segundo ela, eles vivem hoje numa realidade com alta velocidade de informaçíµes, mas não de conhecimento. Grande parte dos alunos da atualidade tem meios, tem acesso, tem velocidade de informaçíµes, mas continuam sem ter o conhecimento profundo, a aprendizagem de fato, a conscientização, a politização, a criticidade. Isso para mim é um sério problema, afirmou Daniela.

A professora apontou ainda os desafios de lidar com a tecnologia em sala de aula. í‰ difí­cil conseguir chamar a atenção do aluno quando ele tem na palma da mão acesso a tantos lugares, tantas coisas, tanta informação, tantos estí­mulos tecnológicos. Grande parte dos questionamentos atuais entre os educadores giram em torno da tecnologia e do uso da mesma. Hoje um dos nossos maiores desafios é esse: fazer nosso aluno se desligar da tecnologia em sala de aula, disse ela. Daniela chamou atenção também para o desgaste dos docentes. Vejo que os professores estão esgotados. í‰ difí­cil chegar na escola entusiasmado e ter que lidar com uma carga horária cansativa, com falta de recursos, de tempo de se preparar mais, entrar numa sala de aula e iniciar uma batalha com os celulares e ouvir palavras desagradáveis de seus alunos. O ato de educar está se tornando cada vez mais complicado e centenas de itens devem ser analisados para que isso melhore, assegurou a mestra.

 

Famí­lia e governo são peças chaves

 

Os familiares dos alunos têm papel fundamental no processo educacional e são peças chaves para enfrentar os desafios da educação. Conforme ressalta a professora Daniela, quando a famí­lia pega junto com a escola as coisas são diferentes. Agora, quando a famí­lia se volta contra a escola ou ignora, não há dúvida que prejudica ainda mais todo o processo. Quando os pais não auxiliam na aprendizagem e no bom desenvolvimento do seu filho na escola, tudo tende a piorar. Nós professores precisamos dos pais ao nosso lado, nos auxiliando, assim a nossa missão certamente terá sucesso, afirmou ela, acrescentando ainda o papel indispensável do governo. Também precisamos, obviamente, que os governantes nos dêem mais apoio e by browseonline">investimentos. Que cumpram o papel primário de desenvolver com eficiência a educação, pois só assim receberemos a valorização necessária, disse ela. Daniela finalizou falando da importância da educação. A palavra que define a educação é ESSENCIAL. Nada se desenvolve sem estudo, sem dedicação ao processo de ensino-aprendizagem. Por isso a área da educação é tão negligenciada. Porque ela é a base de uma sociedade de sucesso. Todos os paí­ses que têm um índice de Desenvolvimento Humano (IDH) melhor que o nosso investem bem mais em educação que nós. Todos sabem da importância da educação, mas poucos fazem algo para que nossa situação melhore. Eu espero que um dia o professor seja visto como um profissional de extrema importância. Porque se não houver essa conscientização por parte da sociedade e principalmente dos governantes, vamos sofrer sérias crises no sistema educacional, pois está cada vez mais difí­cil trabalhar em sala de aula, concluiu Daniela.

 

 

Alunos desejam aulas mais dinâmicas

 

Alunos: O outro lado da moeda

 

Assim como os professores tem suas exigências e opiniíµes sobre as formas de educar, os alunos também têm as deles. No entanto, o ponto de intersecção é o mesmo: a importância da educação. Segundo a estudante torrense Paola Martins, que está cursando o terceiro ano, a educação ainda não recebe o valor que merece. Deverí­amos ver a educação com outros olhos, pois é baseado nela que teremos um futuro diferente, disse Paola, dando a dica que para melhorar o aprendizado dos alunos as aulas poderiam ser menos monótonas e mais dinâmicas, tentando trazer para o ambiente acadêmico diferentes formas de ensino como assistir um documentário, ler um livro, algo que não fuja da matéria ensinada, mas que ajude ainda mais na aprendizagem do aluno, concluiu ela.

A estudante do Ensino Médio (e futura professora) Stéfany Ribeiro, também defende a ideia de aulas mais interessantes e ativas, e deseja que a educação melhore a cada ano. Quero que mais alunos tenham vontade de ir í  escola, que não se sintam obrigados e muito menos presos em um ambiente onde passamos anos de nossas vidas. Anos que não devem ser tratados como ˜tempo jogado fora™, afirmou ela, elencando algumas melhorias que devem ser consideradas para que os desafios educacionais sejam superados. Muitos professores não se importam se o aluno realmente aprendeu a matéria, apenas passam o conteúdo e pulam para o próximo, o que é complicado para aqueles que têm alguma dificuldade de aprendizagem. Sabemos também que ir para a escola é algo que pode ser chato, mas muitas vezes o aluno perde a vontade de aprender por falta de estí­mulo. Isso poderia ser evitado com mais aulas dinâmicas, que estimulem (e saciem) a sede de conhecimento. Não ter apenas aulas teóricas e conteúdos gigantescos passados no quadro, mas formas novas de passar o gosto de aprender. Formas em que o aluno (futuro profissional) pense não apenas em dinheiro ou em um jeito mais fácil de atingir o que quer, mas sim nas próprias vontades e sonhos, ressaltou Stéfany.

Arte e tecnologia podem ser boas aliadas aos professores segundo alguns estudantes. Para a futura arquiteta, Andressa Mendes, em um mundo cada vez mais conectado aonde internet é tudo, unir estudo e tecnologia é uma forma bem interessante para chamar a atenção dos alunos, principalmente os mais novos. Já para a estudante do ensino fundamental, Marjorie Monteiro, as aulas poderiam ser em forma de brincadeira. Assim a gente talvez se concentrasse mais, garantiu ela. Ideias como essa dada pela aluna torrense Marjorie já são realizadas em algumas escolas pelo paí­s, onde professores procuraram na linguagem teatral uma forma de melhorar suas aulas e descobriram infinitas possibilidades de trabalhar conteúdos diversos com os alunos.

 

ENTREVISTA: Um novo olhar para a educação

 

Para enfrentar os desafios é preciso um olhar positivo e uma vontade de transformar. í‰ o que faz a professora Clara Grandini. Confira abaixo a entrevista completa com ela, que atua na Escola São Domingos – Rede Sagrado.

 

 

FOTO: Professora Clara Grandini

 

 

A FOLHA: Como você vê os alunos nos dias de hoje? Qual o ní­vel de comprometimento?

Clara: í‰ perceptí­vel que os alunos de hoje estão mais informados, com conhecimentos mais amplos do que ocorre no mundo devido í  informação disponí­vel na internet e redes sociais. Percebo que os educandos da realidade em que trabalho são comprometidos, mas acredito que isso depende da motivação do educador e do auxí­lio dos pais.

 

Quais os desafios que o professor enfrenta em sala de aula?

Clara: O educador enfrenta em sala de aula muitos desafios. As crianças especiais estão fazendo parte da escola regular e nós necessitamos nos capacitar para atendê-las. A inclusão só é realizada com a participação da famí­lia e equipe pedagógica. Além disso, em sala de aula, o professor é responsável em analisar as habilidades que o aluno deve desenvolver para adquirir competência em determinada área. Este processo se dá continuamente na prática, com uma observação em diferentes âmbitos.   Para conquistar a atenção de um aluno é preciso afetividade, amor, carinho e humildade. Quando um educador possui essas caracterí­sticas, ao longo do ano conquista a atenção do aluno e a aprendizagem se torna mais fácil e significativa.

 

Como você vê o comportamento dos próprios professores?

Clara: A valorização do professor está dentro dele. Nossa classe precisa se valorizar, pois não há um enfermeiro, arquiteto, médico, advogado ou qualquer outra profissão que não tenha passado por professores. O professor precisa ser mais valorizado pelo sistema, porém é preciso que esteja motivado a trabalhar. A mudança só ocorrerá quando o educador perceber que sua formação está desgastada, que precisa se atualizar. Muitos ainda têm medo da tecnologia, não aceitam fazer a diferença em sua sala de aula, e continuam trabalhando com as cadeiras dispostas individualmente. Não há receita pronta de como ser um bom professor, mas é preciso uma transformação. Os alunos podem sentar de forma diferente a cada dia, a música pode invadir a sala de aula, sendo para acalmar ou agitar. í‰ preciso levar mais assuntos do cotidiano pra sala de aula, e não ficar apenas na tabuada decorada, em que os pequenos mal compreendem sua formação. Conheço vários educadores maravilhosos da rede municipal, estadual e particular, e tenho certeza de que muitos fazem a diferença.

 

O que não deve ser feito para não traumatizar e não dificultar o aprendizado do aluno?

Clara: O nosso aluno de hoje quer ser tratado com respeito e carinho. Principalmente os pequenos, que são mais sensí­veis. Para não dificultar o aprendizado do aluno, é necessário trabalhar com diferentes metodologias, da tradicional í  construtivista, da tecnológica í  montessoriana, pois cada aluno aprende de um jeito diferente e somos responsáveis pelo seu crescimento e conhecimento.

 

De que forma os professores podem envolver os alunos na realidade do municí­pio?

Clara: As crianças multiplicam o saber, por isso o educador pode realizar diferentes projetos e açíµes, basta criatividade que os educandos se empolgam e assumem um compromisso sério para ajudar nossa cidade, tudo depende da motivação do professor. Um dos assuntos importantes de se abordar neste inicio de ano letivo é a dengue. Podemos comunicar as crianças sobre os cuidados necessários para evitar água parada e elas com certeza multiplicarão este conhecimento.

 

Como você vê a educação de maneira geral e o que você espera dela?

Clara: A educação é um dos setores mais importantes para o desenvolvimento de uma nação. í‰ através dela que se formam cidadãos crí­ticos e conscientes de seu papel na sociedade.  Paulo Freire já dizia que ninguém se educa sozinho. A educação, que antes era mais precária, teve grande avanço. Hoje, dispíµe de várias estratégias e recursos tecnológicos que incentivam a aprendizagem. Com esperança, acredito que podemos mudar a educação, que podemos fazer a diferença, que as instituiçíµes de ensino devem garantir o compromisso da informação formal, da educação continuada e da proposta interdisciplinar para a formação do cidadão enquanto docente ou discente.  

 


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